Cantiga.

quando eu era criança, eu ouvia muito, eu ouvia histórias... havia, por exemplo, sempre essa senhora - linda, negra, iluminada... - que se prostrava ao pé da nossa porta, pra sussurrar uns amores... pra sufocar uns desejos... como quem nunca descansa... ou está sempre com medo. ela rodopiava, sorria, cantarolava... mas de repente, chorava... de repente, dizia... ela sempre repetia... sobre a dor de andar sozinha...

ai de mim. acho que nunca aprendi a amar de verdade. 
nunca aprendi a esperar pela vida... a desejar coisas belas...
e sempre espero muito... sempre espero tudo.

ai de mim. acho que nunca aprendi a sonhar de verdade,
e sempre cometo distancias... muitas...
sempre cometo insanidades... tantas...
na vontade de não ser só uma encosta. sua.

ai de mim, que outro dia sonhei um sonho bonito.
um sonho de amor, sabe, amigos? um sonho de dó...
doido como a minha poesia. e lá, você nem me via...
seguia sem me ver nunca... sem me olhar de frente... 

quando eu era criança, havia sempre essa senhora - linda, negra, iluminada... - e ela sempre repetia... sobre a dor de andar sozinha.