Atlântico.


Sou filha de mãe branca, de descendência síria indígena portuguesa. E de pai preto, de descendência cruzada entre portugueses e bantus... entre guerreiros e santos... uma mãe de branquidade inventada... pelos trânsitos... um pai de descendências apagadas... de gerações apagadas... pelo tráfico transatlântico. Mas, de tudo o que me importa... eu ele nós... somos todos parte deste mesmo enredo, desta mesma mistura... de descendências perdidas e fronteiras inventadas... de referências apagadas e culturas inventadas... pelo tráfico transatlântico. Por isso e por nós - mãe, pai, filha - por muito e por tantos... quando eu nasci, nasci fronteira... e fui me criando no limbo dessa história. Dessa história - tão inglória, tão perversa, tão civilizada - de abusos, de invasões, de dinheiros e fronteiras inventadas. Partidas no Atlântico. Partidas nos trânsitos. E mais nada.